segunda-feira, 26 de maio de 2014

O pulo do gato

Só quem tem (ou teve) gatos sabe o que é... ter gatos. Parece óbvia essa afirmação. Mas ter gatos não é meramente dividir o teto com eles. Ter gatos é prestar atenção neles andando, parados, dormindo. É deixá-los tornarem-se os donos da casa. Respeitar seus - muitos - momentos de preguiça, enroladinhos no meio da cama. Atendê-los resignados quando eles pedem carinho. Surpreender-se  com seus arroubos atléticos, caçando um mosquitinho indefeso, dando um salto inacreditável ou correndo que nem uns desvairados, indo do nada para lugar nenhum. Eles são lindos e sabem disso. Às vezes ficam parados, como totens, exibindo sua beleza felina para nós, reles humanos. O segredo é observá-los a distância, para quem sabe um dia consigamos captar o mistério contido no "pulo do gato", como nos ensina o poeta, Darcy Cruz:


O pulo do gato

O pulo do gato
vai fundo
o pulo do gato
apanha na pata
um outro mundo
fundo mundo como buraco
do rato
o pulo do gato
desvenda o novelo
a lã o cisco no olho
a lenda do pulo do gato
a bola o gato o rato
o pulo do gato deslinda
o mundo de lã
o pulo do gato arranha 
o olho sem pulo do gato
é cego
o homem vive emaranhado
à cata do pulo do gato
a vida resvala
e o homem que morre
vazio
é pulo de gato
congelado no ato
apanha da vida
palpos de aranha
a manha do pulo do gato
a lã embaça a manhã
do gato.
 
Sem pulo do gato
o homem é cego
o fiapo de lã
enreda o homem
na brisa amorosa
sem nada
novelo a bola o rato
o buraco fundo
escuro
descansa com o rato
o homem
nulo
sem pulo
do gato sem nada


Da série "Gatos não são cachorros"

domingo, 25 de maio de 2014

Pagando na mesma moeda

Alice aprendeu a falar cedo, e assim que a prendeu a falar começou a fazer perguntas sobre tudo: o céu, a terra, a água e o ar, entre outras coisas. O teor das perguntas invariavelmente escapava do campo da lógica. E aprendi que, algumas vezes, a melhor forma de lidar com as perguntas surreais que os pequenos fazem é entrar na mesma vibe, como nesse diálogo surreal que travamos quando ela tinha acabado de completar 3 anos:

Alice: mãe, pato usa batom?
Eu: (hã???) sim, só que amarelo.





 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A onomatopeia do inhame

Alice almoçando com Clara na cozinha, ambas, então, com 4 anos:

Alice: você não gosta de purê de inhame?
Clara: não.
Alice: é bom. (Pensa um pouco) Sabe porque se chama purê de inhame?
Clara: por quê?
Alice: porque é gostoso e quando a gente come faz "nham nham".
 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Veterinária Alice é contra dar guloseimas aos gatos

Alice, às vezes, ataca de veterinária dos gatinhos. Faz massagens e escreve receitas médicas. Umas receitas meio alternativas digamos assim. Mas é inegável que todas elas têm um fundo de verdade. Como esta aqui em que os proíbe de tomar leite "coudesado". Quem vai dizer que pode?

Obs. A grafia tá meio tosca, pois Alice ainda estava com 5 anos quando fez a receita. Mas não dizem por aí que letra de médico é assim?

Veterinária Alice faz um alerta sobre o sedentarismo do gatinho

"Ele não pode fecar deba cho do coberdor"

Prescrição Zen da veterinária Alice

"Ernegia do gato tá boua"                                                                                                    



quarta-feira, 21 de maio de 2014

O gato zoador

Um amigo sozinho na sala da minha casa enquanto me esperava trocar de roupa. Sozinho não, ele e um dos meus gatos. Assim que chego, deparo-me com ele meio perplexo:

Ele: esse gato é vesgo?
Eu: é. O que que tem?
Ele (aliviado): ah bom...
Eu: por quê?
Ele: é que eu tava aqui e ele começou a me olhar, aí eu vi que ele tava vesgo, eu não entendi nada!


terça-feira, 20 de maio de 2014

O paradoxo do Biscoito Globo

Alice, 5 anos, na praia degustando um clássico Biscoito Globo. Sol, brisa, mar frio e suportável...mais carioca, impossível!

Eu: aaai, esse biscoito é muito bom...
Alice: é....é docinho, mas é salgado.

Realmente, perfeita a definição dessa guloseima típica das areias cariocas, essa saborosa contradição...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Definição de donzela por Alice

Alice, aos 5, inventando uma história:

Alice: era uma vez uma moça, ela era uma donzela.
Eu: Alice, você sabe o que é uma donzela?
Alice: sei.
Eu: o que é?
Alice (pensa um pouco): uma princesa que gosta de fruta!


Nunca houve uma gata como Tita

Desde criança tenho gatos. O primeiro deles foi o Nataré. Dele quase não lembro, sei apenas que era um gato preto. E que tinha esse nome esdrúxulo. Depois veio a Pita (nome dado pelo meu irmão, já que no livro de inglês dele tinha um gato chamado Peter, e como ela era fêmea não teve dúvidas: Pita). Uma fera, arranhava tudo que via pela frente: móveis e pessoas. Então surgiu o Agatão, nome de um poeta trágico da Antiguidade. Era um siamês gordo e lindo que caiu da janela. Como chorei. Tal acontecimento me fez crer que nunca mais teria gatos. Até que chegou a Tita - um marco entre os gatos que tive. Foi como Sócrates para a filosofia, Jesus para o cristianismo e Newton para a física. Pouco depois me mudei. E ela continuou na casa dos meus pais. Mas, mesmo longe, ela continuava sendo minha. Há alguns anos ela morreu e até hoje é lembrada. Não só pelos filhos que deixou e que foram adotados pela Alice, minha filha, como pela sua perspicácia. Inteligente, bipolar, geniosa, louca, voluntariosa, selvagem.... adjetivos não faltavam para tentar rotular a gatinha. Ao mesmo tempo que parecia descender de uma linhagem de gatos selvagens, em outros momentos parecia gente, parecia que ia falar, mas as palavras não lhes saiam da boca. Linda e selvagem. Essa era a Tita.

Alguém está preso na gata


Para entender melhor a "personalidade" da Tita, esse poema feito por Darcy Cruz, admirador incondicional da felina, talvez seja de alguma valia.

 
Alguém está preso na gata
Alguém está preso na gata.
Pressente-se o arranhar de unhas
no Vidro do olhar azul:
o prisioneiro quer sair.
Parece coisa de homem. Alguém
se comunicando na lentidão assumida;
no arquear olímpico, antes do salto,
alongar de patas, tônus só languidez:
movimentos bruscos nem pensar.
Parece coisa de mulher. Alguém
se enrodilha, homem ou mulher,
preguiça pura, cochilos sem pretextos.
Alguém enviando mensagens:
estou aqui, me ouve? me vê?
Alguém que come flor no jardim
que pede escova no lombo
eriçado de volúpia.
Alguém miando para abelhas, marimbondos,
mariposas, joguetes em patas crianças.
Este alguém gata quer liberdade
mesmo ou ficar cativo para sempre
no couro felídeo?
Gata, pelos, aconchego
apelo ronron – o que quer dizer?

sábado, 17 de maio de 2014

Totalmente Jedi

Na saída do aniversário de um amiguinho cujo tema da festa foi "Guerra nas Estrelas", Alice,  empolgada, começa a fazer planos para sua festa de 5 anos:

Alice: eu quero que no meu aniversário os brindes para os meninos sejam máscaras do Arte Vader e também vou querer uns brindes com aquele velhinho verde de cabelo branco.
Eu: o mestre Yoda?
Alice: é, o mestre Idiota.

Flores do bem

Alice, com 4 anos, voltando comigo de viagem, no banco de trás do carro. Depois de várias brincadeiras, iniciamos o clássico "O que é o que é". Como todos já estão manjados, a gente sempre acaba inventando umas adivinhações meio nonsenses:

Alice: o que é o que é que quando nasce fica feliz da vida?
Eu: hum....o bebê?
Alice:  Não. Flor!
Eu: flor?  Como você sabe?
Alice: ué! girassol quando nasce fica feliz da vida: ele abre um sorriso para o sol!